Vinícola Maturano: entre montanhas, vinhedos e histórias, uma nova expressão do vinho fluminense ganha vida em Teresópolis
A quase mil metros de altitude, projeto familiar une vitivinicultura, gastronomia, natureza e hospitalidade na Serra Fluminense. À frente dessa construção, Fernanda Maturano compartilha a trajetória da propriedade, os desafios de produzir vinhos com identidade própria e o desejo de ampliar o reconhecimento da produção vitivinícola do Rio de Janeiro.
Por Chris Araripe
Entre as montanhas da Serra Fluminense, onde a paisagem se revela em tons de verde e a Mata Atlântica compõe o cenário, uma experiência vem ganhando forma em Teresópolis: a Vinícola Maturano. Mais do que produzir vinhos, o empreendimento familiar nasce do desejo de construir um legado, valorizar a relação com a região e aproximar o público de uma cultura que envolve natureza, conhecimento, gastronomia e tempo.

A aproximadamente 950 metros de altitude, a propriedade reúne vinhedos, espaços de produção e ambientes dedicados à recepção de visitantes. A proposta é convidar o público a conhecer não apenas os rótulos, mas também a história, as escolhas e o trabalho que existem por trás de cada garrafa.
Para Fernanda Maturano, proprietária da vinícola, acompanhar o desenvolvimento desse projeto tem um significado que vai além dos resultados da produção.
“A Maturano é um projeto familiar que reúne nossa ligação com Teresópolis, o vinho e o desejo de construir um legado”, afirma.
A declaração ajuda a compreender a essência do empreendimento: uma iniciativa que busca consolidar sua identidade a partir da relação entre família, território e produção. Nesse percurso, cada etapa representa uma oportunidade de aprendizado, desde o desenvolvimento das videiras até a experiência de receber quem chega interessado em descobrir os vinhos da região.
Uma história familiar que floresce entre as montanhas
A construção de uma vinícola envolve muito mais do que plantar uvas e elaborar bebidas. Exige planejamento, conhecimento técnico, decisões que acompanham o ritmo da natureza e uma visão capaz de transformar um projeto em uma experiência duradoura.
Na Maturano, essa construção está diretamente ligada à história da família e à conexão com Teresópolis. O desenvolvimento dos vinhedos e a estruturação dos espaços de produção fazem parte de um processo que ganha novos significados à medida que a propriedade se transforma e passa a receber visitantes.
A ideia é permitir que as pessoas conheçam o vinho em seu contexto de origem e compreendam os caminhos percorridos até chegar à taça. Essa aproximação entre produtor e consumidor também contribui para tornar a experiência mais rica, despertando a curiosidade sobre as variedades cultivadas, as técnicas empregadas e as particularidades de cada rótulo.
“Queríamos que as pessoas pudessem conhecer os vinhos no lugar onde são elaborados e compreender a história, as escolhas e o trabalho por trás de cada taça”, explica Fernanda.

A proposta traduz uma tendência importante no universo do vinho: a valorização da experiência associada ao produto. O visitante deixa de ser apenas alguém que prova uma bebida e passa a conhecer o ambiente, as pessoas e os processos que ajudam a definir sua identidade.
Teresópolis e o potencial de um terroir fluminense
Quando se fala em vinho brasileiro, regiões tradicionais do Sul do país costumam ocupar o imaginário do consumidor. Entretanto, a vitivinicultura nacional apresenta diferentes realidades, técnicas e possibilidades, e a Serra Fluminense integra esse movimento de diversificação.
Na Maturano, a aproximadamente 950 metros de altitude, o ambiente de montanhas e Mata Atlântica faz parte da identidade da propriedade. Mas compreender o território exige olhar para além da paisagem.
No universo do vinho, o conceito de terroir envolve a interação entre fatores naturais e humanos, como clima, solo, altitude, variedade da uva, manejo do vinhedo e decisões de elaboração. É dessa combinação que podem surgir características próprias, desenvolvidas e observadas ao longo das safras.
Fernanda destaca que a vinícola trabalha com diferentes áreas de cultivo, entre elas Campanha, Vale Alpino e MonteBello. A observação do comportamento das variedades em cada local integra o trabalho de construção de uma identidade para os vinhos.
“Por isso, falar do nosso terroir é falar também de um processo contínuo de aprendizado sobre a região e seu potencial para produzir vinhos com identidade própria”, ressalta.
A fala revela uma característica importante do projeto: a disposição para conhecer profundamente o ambiente em que as uvas se desenvolvem. Em vez de tratar o território como uma fórmula pronta, a vinícola aposta na observação e no acompanhamento técnico para compreender as particularidades de cada cultivo.
Esse processo é especialmente relevante em uma região cuja expressão vitivinícola ainda pode despertar descobertas para muitos consumidores. Cada safra oferece novas informações, permitindo avaliar o desenvolvimento das plantas, as condições de cultivo e as possibilidades de elaboração.

Mais do que afirmar antecipadamente uma identidade definitiva, a Maturano busca construí-la a partir da experiência, da consistência e do conhecimento acumulado ao longo do tempo.
Da videira à taça: técnica, precisão e respeito à uva
Por trás de um vinho existe uma sequência de decisões que começa muito antes da fermentação. A escolha das variedades, o manejo das plantas e a definição do momento da colheita influenciam diretamente o resultado final.
Na Maturano, o trabalho envolve acompanhamento agronômico e atenção às características de cada área de cultivo. Depois da colheita, as etapas de elaboração também são conduzidas de acordo com as particularidades das uvas e o perfil de vinho que se pretende produzir.
Entre as técnicas utilizadas está a dupla poda, método que permite direcionar a colheita de determinadas variedades para o inverno. A estratégia é empregada em diferentes regiões vitivinícolas brasileiras e possibilita ajustar o ciclo produtivo às condições locais.
A vinícola também realiza colheitas de verão, como a do Chardonnay cultivado no MonteBello. A escolha do período depende da variedade, da área e dos objetivos de elaboração.
Essa diversidade de práticas demonstra que produzir vinho exige decisões específicas para cada contexto. Não existe uma única fórmula aplicável a todas as uvas: o trabalho passa por observar, comparar e compreender como cada variedade responde às condições em que é cultivada.

A elaboração dos vinhos conta com a participação da enóloga Mônica Rossetti, profissional responsável por contribuir com o conhecimento técnico necessário para transformar a matéria-prima em diferentes expressões de vinho.
Segundo Fernanda, a proposta é trabalhar com mínima intervenção, sem abrir mão dos critérios técnicos.
“Buscamos uma elaboração com mínima intervenção, orientada por critérios técnicos e pelo respeito à identidade de cada vinho”, afirma.
A expressão “mínima intervenção” não significa ausência de controle ou de conhecimento. Pelo contrário: trata-se de uma abordagem que procura respeitar as características da uva e do vinho, com decisões fundamentadas ao longo do processo de elaboração.
O objetivo é encontrar equilíbrio entre técnica e identidade, permitindo que cada vinho expresse suas particularidades sem perder de vista a qualidade e a consistência do trabalho.
2025: um marco na trajetória da vinícola
Um dos momentos mais significativos dessa história ocorreu em 2025, quando a Maturano realizou sua primeira vinificação na própria estrutura.
O marco representa um avanço importante na consolidação do empreendimento, aproximando ainda mais o cultivo das uvas das etapas de elaboração dos vinhos dentro da propriedade.
A vinificação própria amplia as possibilidades de acompanhamento do processo e integra uma nova fase de aprendizado. Cada decisão, desde o recebimento das uvas até as etapas seguintes, passa a fazer parte de uma experiência que contribui para o desenvolvimento técnico e para a construção da identidade dos rótulos.
“Foi um marco muito importante nessa trajetória”, destaca Fernanda, ao se referir à primeira vinificação realizada em 2025.
Para um projeto que se propõe a construir um legado, esse momento simboliza mais do que uma etapa operacional. Representa a evolução de uma iniciativa familiar que vem estruturando seus conhecimentos, aprimorando os processos e estabelecendo as bases para o futuro.
É um percurso que exige paciência. Afinal, a qualidade de um vinho não se constrói em uma única safra, assim como a reputação de uma vinícola depende de continuidade, aprimoramento e capacidade de aprender com cada resultado.
Uma visita que começa com a história e termina entre sabores e paisagens
Na Maturano, a experiência do visitante foi pensada para ir além da degustação. A proposta é apresentar a propriedade por diferentes perspectivas, permitindo que cada pessoa encontre sua própria maneira de aproveitar o lugar.
Os tours incluem a exibição de um breve documentário sobre a família e uma visita aos espaços de produção. O percurso ajuda a contextualizar o empreendimento, apresentar sua história e explicar o caminho que transforma a uva em vinho.
As degustações aprofundam o contato com os rótulos, convidando o visitante a observar aromas, sabores e características de cada bebida. É uma oportunidade de conhecer melhor o produto e compreender como o trabalho desenvolvido na propriedade se materializa em cada taça.

A experiência pode continuar no Restaurante Origens, no Wine Bar ou em atividades ao ar livre, como passeios pelos vinhedos, piqueniques no jardim e o sunset com música ao vivo.
A diversidade de ambientes permite que a visita tenha diferentes ritmos. Há espaço para quem deseja se aprofundar na produção, para quem busca uma experiência gastronômica e para quem simplesmente quer aproveitar a paisagem da serra.
Essa integração entre vinho, comida, natureza e convivência também amplia o significado da visita. O produto deixa de ocupar sozinho o centro da experiência e passa a fazer parte de um conjunto de sensações e descobertas.
“Pensamos a visita como um encontro com nossa história, com os vinhos e com a paisagem”, resume Fernanda.
A hospitalidade, nesse contexto, não é um detalhe complementar. Ela integra a proposta da vinícola e influencia a forma como o visitante percebe o empreendimento.
Fernanda destaca a importância da equipe nesse processo, especialmente no atendimento, na escuta e na atenção aos detalhes. Afinal, a experiência de quem visita um lugar também é construída pelas pessoas que o recebem.
Cada interação contribui para transformar uma visita pontual em uma lembrança que pode motivar o retorno.
Gastronomia, natureza e hospitalidade: uma experiência para desacelerar
Em um cotidiano marcado pela pressa e pelo excesso de estímulos, experiências que convidam à contemplação ganham um significado especial. Na serra, a paisagem oferece um cenário propício para desacelerar, conversar e aproveitar o tempo de outra maneira.
A intenção, segundo Fernanda, é que as pessoas se sintam acolhidas e tenham vontade de permanecer no local sem pressa.
Essa preocupação com o acolhimento reforça a dimensão humana do projeto. Em uma vinícola familiar, a história não está apenas nos vinhedos ou nos processos produtivos, mas também na maneira como ela é compartilhada com quem chega.
O desafio de fortalecer a identidade do vinho produzido no Rio de Janeiro
A trajetória da Maturano também se conecta a uma questão mais ampla: como ampliar o reconhecimento dos vinhos produzidos no estado do Rio de Janeiro?
Para Fernanda, esse é um dos objetivos que orientam o futuro da propriedade. A intenção é contribuir para que mais pessoas descubram a produção vitivinícola fluminense e se interessem por conhecer os vinhos elaborados na região.
“Nosso desejo é que a Maturano contribua para ampliar o reconhecimento da vitivinicultura do estado do Rio de Janeiro e desperte o interesse das pessoas em conhecer os vinhos produzidos aqui”, afirma.
A meta envolve não apenas a evolução individual da vinícola, mas também a valorização de um território e de suas possibilidades produtivas.
Para conquistar espaço no mercado, projetos vitivinícolas precisam desenvolver produtos consistentes, comunicar sua identidade e estabelecer relações de confiança com os consumidores. O turismo pode desempenhar um papel importante nesse caminho, porque permite apresentar o vinho em seu contexto de origem e aproximar o público de quem participa de sua produção.
Ao conhecer os vinhedos, observar os processos e conversar sobre as escolhas técnicas, o visitante passa a ter referências que vão além do rótulo. A experiência ajuda a construir repertório e a despertar interesse por uma produção que talvez ainda não fizesse parte de seus hábitos de consumo.

No caso da Maturano, a integração entre elaboração própria, gastronomia e hospitalidade oferece diferentes pontos de contato com esse público.
A consolidação desse trabalho, no entanto, depende de um percurso contínuo. É preciso acompanhar as safras, aperfeiçoar os processos, aprofundar o conhecimento sobre os vinhedos e manter a qualidade da experiência oferecida aos visitantes.
É justamente essa visão de longo prazo que orienta os próximos passos da família.
O futuro: qualidade, conhecimento e uma história em construção
Ao olhar para os próximos anos, Fernanda destaca três frentes importantes: a evolução da qualidade dos vinhos, o aprofundamento do conhecimento sobre os vinhedos e o aprimoramento da experiência de quem visita a propriedade.
A intenção é crescer com consistência, respeitando o tempo necessário para amadurecer cada etapa do projeto.
“Estamos no início de uma história que desejamos construir com consistência e visão de longo prazo”, afirma.
A declaração sintetiza o momento vivido pela Maturano. A vinícola já reúne estrutura de produção, diferentes áreas de cultivo e uma proposta de visitação que integra gastronomia, natureza e hospitalidade. Ao mesmo tempo, reconhece que a construção de uma identidade sólida depende de aprendizado permanente e de decisões cuidadosas.
O futuro também passa pelo desejo de aprofundar a relação com os visitantes. A ideia é que as pessoas não apenas conheçam a propriedade, mas acompanhem sua evolução, descubram novas safras e encontrem motivos para voltar.
“Mais do que visitar a vinícola, esperamos que as pessoas criem uma relação com este lugar e tenham vontade de voltar, acompanhar as novas safras e fazer parte da nossa história”, conclui Fernanda.
Muito além de uma taça de vinho
Na Serra Fluminense, a Vinícola Maturano representa uma iniciativa que aproxima a produção vitivinícola de outras dimensões da experiência humana: a memória familiar, a relação com a natureza, o prazer à mesa e a arte de receber.
S
ua história ainda está em construção, e talvez seja justamente essa condição que torne o projeto interessante. Cada safra traz novas possibilidades, cada etapa amplia o conhecimento e cada visitante ajuda a estabelecer uma relação entre o trabalho desenvolvido na propriedade e o público que deseja conhecê-lo.
Em Teresópolis, entre montanhas e vinhedos, a Maturano aposta em um caminho que combina técnica, hospitalidade e visão de futuro. Um projeto que busca afirmar sua identidade sem perder de vista suas origens e que convida o visitante a descobrir, em cada taça, um pouco da história que está sendo construída.
Porque, antes de chegar à mesa, o vinho percorre um caminho feito de escolhas, dedicação e tempo.
E é nesse percurso, da família à videira, da uva à elaboração, da propriedade ao visitante, que a Maturano encontra a oportunidade de escrever sua própria história no cenário do vinho fluminense.
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